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04/01/2004 13:21 SANDICES DE UM ENLACE ULTRA MODERNO 
Toda a sua vida fora conturbada. Não de forma negativa, com desesperos, neuroses, decepções e tudo o que só um leitor de vida semelhante poderia entender. Tinha um estado permanente de anormalidade personalizada.
Helena sentia o peso de ser assim chamada. Se seu modo de existir já despertava muita curiosidade, este nome era ainda um fator agravante das especulações. Afinal, costumavam achar estranho o fato de aquela pessoa de aparente debilidade mental atender por um nome tão politicamente correto, convenção osmoticamente estabelecida em décadas com novelas de Manoel Carlos.
Para sentir-se menos contrariada, a moça preferia ver seu diferencial na importância histórica da Ilha de Santa Helena, exílio de Napoleão Bonaparte, palco da morte desse voraz e derrotado conquistador.
Muito estudada por todos os que estavam ao seu redor, Helena vivia sob o estigma da eterna solteirice. Superando todas as expectativas, confirmou a teoria de atração de opostos e iniciou um namoro sólido, com um rapaz dito normal para os padrões sociais.
Como todas as situações que a envolviam, o pedido de namoro foi, no mínimo, engraçado. Vejamos um pouco dessa história. Se você acha que a extrovertida Helena tomou a iniciativa, engana-se. Nenhuma de suas ações era previsível. Mas, o recatado Marco Antônio não sabia disso, e esperou por longo tempo uma manifestação direta.
Esperou, esperou, esperou. Helena esperou, esperou, esperou. E tanta espera não resultou em sofrimento, embora as dúvidas de ambos fossem mais caóticas do que a Física Moderna.
Ele, estudante de Engenharia e, ela, de filosofia. Ninguém sabe como exatas e humanas se encontraram, mas a grande oportunidade se deu numa festa da universidade. Doce destino... Conseguiram ficar sozinhos enquanto alguns futuros médicos se matavam na piscina coletiva.
- Helena... sabe que tenho pensado muito em você? – começou Marco Antônio, convencional.
- Sem essa, Marcão! Muito é pouco... estou sabendo dos seus sonhos também.
- Meus sonhos? Desculpe, mas não controlo meus sonhos... o que você sabe?
- Bem, além de anormal sou paranormal. Mas não é preciso ter poderes sobrenaturais para adivinhar o conteúdo dos teus sonhos, pela maneira como você começou essa conversa.
- O que você quer dizer com isso?
- Ora, ora... sou uma filósofa. Não tente fazer análises quantitativas de minhas falas. Simplesmente pense.
O silêncio reinou por alguns minutos. O mundo, para eles, seguiria nesse estado por um bom tempo, não fosse o grito de um dos afogados, nos poucos segundos em que ficou sobre a superfície. Entre comentários sobre o ocorrido, continuaram o diálogo:
- Este fato tem muito a nos dizer – prosseguiu Helena.
- Em que sentido? – indagou Marcão, intrigado.
- Basta sentir-se como aquele burro, que se deixou afogar por alguns acadêmicos rebeldes.
- Nossa! Não julgue o rapaz assim! Desse jeito não vou poder me colocar no lugar dele...
- Vai sim. O seu conceito de burro é muito denotativo. Para mim representa muitas coisas, por isso falei assim.
- O que é um burro para você, no contexto da situação?
- Um cara que está sob a pressão de uma atmosfera e procura ser ainda mais comprimido, se assim você entende melhor. A atmosfera é a vida. A piscina, um problema que pode ser resolvido facilmente: é só não entrar nela. Para isso temos que ficar longe das pessoas que nos tentam afogar. Elas representam as circunstâncias.
- Interessante a sua análise.
- Só isso?
- Bem... O que você queria que eu dissesse?
- Nada.
- Nada?
- Queria que você agisse.
- ...
- Quer saber? Vá plantar batatas! – explodiu Helena, numa reação aparentemente irracional.
Estupefato, Marco Antônio permaneceu mudo. Helena deixou a festa, propositalmente, para dar asas à imaginação do amado. Com certeza, ele passaria o resto da noite pensando no acontecido e sonhando com piscinas.
Enquanto isso, Helena ria a toa, no caminho para casa. Contorcia-se indelicadamente pelas ruas imitando imaginariamente o raciocínio de Marco Antônio. Pegou um táxi e seguiu feliz, enquanto o protótipo de engenheiro chorava de desespero, por sempre ter acreditado que somente o raciocínio lógico e equacionado resolveria os problemas da vida.
No dia seguinte, encontraram-se no caminho da universidade. Helena abordou-o cinicamente:
- E aí, gracinha? Pensou bastante?
- Você não está com raiva de mim? - perguntou, assustado.
- Por que estaria?
- Ora... Você foi tão rude comigo ontem...
- Isso não quer dizer nada... Você precisa aprender a falar mais o que vem na sua cabeça, o que você pensa. Eu estava com vontade de te mandar plantar batatas, e mandei. Isso não quer dizer necessariamente que eu esteja com raiva de você.
Marco Antônio respirou aliviado e resolveu agir, como Helena queria. Sim, por mais incrível que possa parecer aquele homem exato aprendeu a ser humano em apenas uma noite.
- Aí é que você se engana. – continuou ele, com ar de superioridade.
- Eu nunca me engano. Só sou diferente de todo mundo.
- Então, se eu te pedisse em namoro agora, isso não significaria necessariamente que eu te amo e quero passar o resto da minha vida ao teu lado?
Helena não podia se conter de felicidade... Saiu gritando “Eureka!”, abraçando e beijando Marco Antônio exaustivamente. E não disse nada.
- Espere, Helena... E você?
- Ah Marcão... Você não espera que eu continue este momento fenomenal dizendo “oh, meu amor, eu também te amo!” – dizia, entre risos – daqui a pouco você vai me convidar para ir à praia ficar brincando de pega-pega, daquele jeitinho infantil e desestimulante que as novelas dizem ser romântico!
- Nossa... que idéia você tem de mim!
- Só posso te adiantar uma coisa: eu vou fazer da sua vida uma coisa muito divertida!
Dizendo isso, encostou-o contra a parede e deu-lhe beijos ardentemente inesquecíveis, dispensando o pedido de todo início de namoro tradicional.
Casaram-se seis meses depois. Helena entrou na igreja de vestido branco, véu e grinalda, como mandava o figurino, mas sob o ritmo de uma marcha nupcial remixada. O noivo chorava demasiadamente, e tal cenário não poderia ser mais insano. Eram muito diferentes, sim. Mas MarcoAntônio apaixonou-se pelo doce aprendizado da loucura, e foi feliz. Silvia Ferreira | comentários(1)
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